21 de Maio, 2026
LSE vs. legenda comum: qual a diferença?
Se você já trabalhou com acessibilidade audiovisual, provavelmente já ouviu a pergunta: "a legenda que temos no vídeo já não basta?" A resposta, na maioria dos casos, é não — e entender o motivo exige compreender a diferença fundamental entre legenda comum e LSE (Legendagem para Surdos e Ensurdecidos).
O que é legenda comum
A legenda comum, também chamada de legenda interlingual ou legenda de tradução, tem um objetivo claro: converter a fala do áudio em texto escrito. Ela é projetada para espectadores que ouvem bem, mas não compreendem o idioma falado — como na exibição de um filme estrangeiro.
Por isso, a legenda comum reproduz apenas os diálogos e narrações, em geral sem identificar quem está falando e sem mencionar qualquer elemento sonoro além da fala.
O que é LSE
A LSE, normatizada pela ABNT NBR 15610, é projetada para um público diferente: pessoas surdas e ensurdecidas, que não têm acesso à trilha sonora. Para esse público, a lacuna informativa vai muito além dos diálogos. Uma cena de suspense depende de sons de passos, respiração ofegante e música tensa. Uma cena de comédia pode ter uma piada construída a partir de um som que nunca aparece em tela. Nada disso chega ao espectador surdo por meio de uma legenda comum.
Os quatro elementos exclusivos da LSE
1. Identificação de falantes
A LSE usa cores diferentes para cada personagem ou indicações textuais entre colchetes ([MARIA], [NARRADOR]) para que o espectador surdo saiba exatamente quem está falando, mesmo quando o personagem está fora de quadro ou a tela está escura.
2. Descrição de sons ambientes
Sons relevantes para a narrativa são descritos: [porta batendo], [passos se aproximando], [telefone tocando]. Esses elementos são invisíveis para o espectador surdo sem a LSE e podem ser fundamentais para compreensão da trama.
3. Indicação de música
A música não é apenas trilha de fundo — ela carrega emoção e informação narrativa. A LSE descreve sua presença e função: [música tensa], [trilha romântica], [silêncio repentino].
4. Efeitos sonoros
Efeitos dramáticos como [tiro], [explosão] ou [vidro quebrando] são incluídos quando relevantes para a compreensão da cena.
Quando usar cada uma
Use legenda comum quando o objetivo for tradução para outro idioma ou quando o público for ouvinte que precisa de texto em vez de áudio.
Use LSE quando o conteúdo precisar ser acessível para pessoas surdas e ensurdecidas — o que é exigido por lei em obras audiovisuais financiadas com recursos públicos (IN 128 da ANCINE, Lei Paulo Gustavo, Lei Rouanet) e recomendado para todo conteúdo que busque alcance máximo de público.
Conclusão
Substituir LSE por legenda comum não é uma economia — é uma falha de acessibilidade. Para o espectador surdo, receber apenas os diálogos sem identificação de falantes, sons e música é como assistir a um filme com metade das informações. A LSE existe para fechar essa lacuna, e sua produção correta, com revisão por consultor surdo, faz toda a diferença.